Ano Novo, mais um ou menos um?

Ano Novo, mais um ou menos um?

Começou 2025 e com ele enchemo-nos de planos e de projetos para serem alcançados, o que é a praxe neste período. Renova-se a esperança de que este ano sim será de mudanças e das conquistas que almejamos. Todos sabemos que a simples esperança não é suficiente para mudanças reais, contudo, esta crónica não é sobre isso.

Hoje de manhã ao me preparar para o trabalho olhei pela janela e pensei, mais um ano. Imediatamente veio-me à cabeça: ou menos um. E ali acendeu “a chama” que sinto sempre que algum tema me toca de forma diferente e não pude deixar de sorrir, disse para mim mesma: a crónica deste mês, a primeira do ano.

E ao pensar nisso, se é mais um ano ou menos um ano, consegui conectar esse pensamento com algo que tem estado muito presente na minha vida, de forma mais candente nos últimos tempos: o nosso olhar sobre as coisas é essencial para a forma como vivemos.

Uma mesma situação é vivenciada de forma distintas pelos envolvidos pelo simples fato de que cada pessoa ser diferente e como tal sente/apreende o mundo de forma distinta. E como o que somos e fazemos é resultado da forma como sentimos/apreendemos o mundo, acabamos por ter atitudes, percepções e opiniões distintas dos outros.

A cada acontecimento nas nossas vidas automaticamente a catalogamos como bom ou mau e conforme essa catalogação assim agimos (ação ou inação). E essa catalogação é determinada pelas nossas crenças, vivências, preconceitos e estado de espírito atual, para enunciar algumas. E não raras vezes uma mesma situação, tempos depois é vista por nós de outra forma, resultado das mudanças havidas em nós e nas lentes com as quais olhamos o mundo. É a vida como a conhecemos. A imutabilidade neste sentido seria a sentença para a nossa extinção.

Tudo isto para chegar aos seguintes pontos: temos noção das lentes que temos usado para “ver” a nossa vida? Temos noção se essas lentes tornam a nossa vida mais fácil ou difícil? Temos noção de que temos poder real de trocar essas lentes por outras melhores?

As coisas acontecem e quando elas acontecem elas não são boas nem más, são o que são. A qualificação/catalogação é atribuída por nós como acima referi. O que acontece é que essa nossa qualificação/catalogação é feita de forma quase automática que a aceitamos como a única possível e acabamos por não a questionar ou somente fazê-lo depois, quando temos de gerir os estragos causados.

A inação para mudar o que sabemos que temos de mudar pode ser justificada pelo fato de não estarmos dispostos a despender o esforço necessário, o tempo que é necessário e porque não nos preparamos para a sabotagem que a nossa mente nos irá constantemente fazer para que tudo se mantenha como está. Contudo, essa inação pode ser também justificada pela convicção da inevitabilidade da nossa personalidade ser de determinada forma.

Tem sido constante nas minhas crónicas a chamada à responsabilidade de cada um de nós pela sua vida, pontuando que é necessário assumirmos o leme da mesma e que devemos nos preocupar somente com aquilo que está sob o nosso controlo. E está no nosso controlo determinar “as lentes” com que olhamos o mundo. Não podemos mudar o que nos trouxe até aqui (vida familiar, infância, ambiente, experiências) e que nos moldou, tornando-nos no que somos, mas podemos criar o ambiente que nos permitirá ser aquilo que almejamos.

Não será fácil essa jornada, será em muitos casos doloroso e penoso, poderá levar muito tempo, haverá avanços e recuos, poderá obrigar à desconstrução do eu atual e causar dor. Tudo situações que nos podem dissuadir de empreender e manter neste caminho de autoconstrução. Mas como é justo que muito custe aquilo que muito vale devemos perseverar nessa jornada, a pessoa que seremos no final valerá cada lágrima, cada grito de dor, cada “dor de barriga”, cada noite mal dormida.

Na forja da Adénis que quero ser prefiro olhar para este 2025 como mais um ano, no entanto, reconhecendo que é menos um no cômputo da minha vida terrena. Reconhecer que há dois lados para tudo o que acontece deve ser natural e não ser causador de sofrimento ou mal estar. E como é menos um ano deve impelir-nos a imprimir algum senso de urgência nas coisas que fazemos pois nunca sabemos qual será o nosso último.

Devemos abraçar a vida com tudo o que ela nos reserva, não esquecendo que está no nosso poder escolher a forma como olhamos para ela. Eu escolho olhá-la com gratidão, com paciência, acolhendo as partes menos boas da minha personalidade sabendo que elas me definem tal como as partes boas, trabalhando para as melhorar e sabendo que no fim valerá a pena.

A todos um 2025 de experiências e descobertas.

Dedico a crónica deste mês à minha amiga Vânia Rosa.

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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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