Cabo Verde – 50 anos e agora?

Aceitado o desafio veio o passo seguinte, decidir o que escrever. Confesso que não por falta de matéria para tal, pois a nossa vida nacional é rica e variada, as dificuldades e desafios são incontáveis e o futuro sempre nos permite dar asas à imaginação e à vontade de trazermos para a realidade os nossos sonhos e aspirações.
As minhas crónicas até hoje debruçaram-se sobre as inquietações, reflexões e lições muito pessoais que venho tirando do que vou vivendo e questionei-se em como conciliar os temas pessoais que abordo com a realidade do meu país, que está prestes a completar tão linda idade? Parei um bocado para pensar e a ideia para esta crónica chegou naturalmente: não há assim tantas diferenças entre um país e uma pessoa física, de carne e osso. Os desafios podem parecer distintos mas não o são. O que os distingue é a escala de cada desafio, a abrangência de cada uma das decisões tomadas, relativamente a vidas influenciadas e efeito no tempo.
Ao pensar em que pessoa seria Cabo Verde no estado em que se encontra hoje dou por mim com a seguinte imagem: uma pessoa que contra todas as probabilidades soube superar-se em vários campos, mas que a determinado momento perdeu-se no afã do dia a dia, que hoje sente que precisa redescobrir a sua voz e resgatar os valores que lhe permitiram chegar onde chegou. Uma pessoa que se sente algo defraudada das promessas que as suas conquistas encerraram e que diante de todas as opções que se lhe abrem à frente, precisa escolher que caminho trilhar.
Desde que me lembre ouço falar no imenso potencial do país, pela sua posição estratégica no meio do Atlântico, a meio caminho da África, Europa e Américas. Ouço falar da alma e espírito do caboverdiano, trabalhador, lutador incansável, orgulhoso das suas origens e apegado aos “dez grãozinho di tera k Deus spadjá na mei di mar”. Ouço falar da nossa ambição em sermos referência em África nisto ou naquilo, do “trivimento” que nos permitiu chegar onde chegamos. E na boca tenho um gosto amargo pois sei que podíamos ter conquistado mais, podíamos estar melhor.
Creio não dizer um grande disparate ao afirmar que grande parte do problema que afeta o mundo de forma geral e Cabo Verde em particular é o extremar de posições de todos os atores políticos e sociais. Ou está tudo bem ou está tudo mal. Nada do que é feito serve, nada do que os opositores sugerem tem mérido, nenhum voz contra a corrente é ouvida, quem vem a seguir destrói o que foi construído e vamos ficando num eterno construir e destruir que vai adiando o desenvolvimento que todos querem.
Nem é outro disparate dizer que se juntarmos o individualismo cego ao que acima referi, conseguimos a proeza tornar as coisas piores. Estamos inseridos numa comunidade, quer seja de pessoas quer seja de países, e como tal os interesses são diversos, em alguns casos até contraditórios, contudo, para que todas as partes possam tirar proveito há que fazer a harmonização das vontades, cada um abrindo mão de algo para que o resultado final seja vantajoso para todas as partes, ainda que não da forma inicialmente esperada.
O mundo ficou pequeno, cabe na palma da nossa mão, sentimo-nos parte do todo global o que é de salutar, contudo, faz-nos perder a fina conexão com o que temos mais perto de nós. Faz-nos olhar para a nossa realidade com lentes que não são nossas ou que não são as mais adequadas para aquilo que somos e temos no momento. Somos facilmente seduzidos por discursos que para além de agradáveis ao ouvido nada têm que se aproveite na prática. Somos levados a dar especial atenção ao supérfluo, perdemo-nos em disputas vãs e acabamos por desvalorizar o essencial: cuidar do nosso povo, de lhe dar o que precisa e que lhe conferirá dignidade para poder lutar pelo amanhã.
Todo o cabo-verdiano quererá um Cabo Verde desenvolvido e própero à imagem deste ou aquele país, no entanto ao olhar tanto para fora, para o que vê acontecer lá fora sem espírito crítico, deixa de se atentar ao país real, deixa de ser capaz de ouvir as vozes daqueles que vivem a realidade do dia a dia e que não sentem na sua vida quotidiana aquilo que lhes querem dizer com a interpretação dos dados estatísticos que são publicitados. Deixa de ser capaz de reconhecer as suas fraquezas e fragilidades, em suma, vai-se perdendo de si.
O ser humano ao chegar aos 50 anos já viveu mais da metade da sua vida, tem mais passado do que futuro, não poderá ignorar esse fato, o que lhe dará necessariamente um certo senso de urgência para fazer algumas alterações para que possa viver uma velhice proveitosa e com dignidade. Isso não acontece com um país.
Um país ao completar 50 anos sabe que estes foram os primeiros, que pela frente virão séculos de vida. Não obstante esse fato não se pode subestimar a necessidade de um senso de urgência pois o futuro se constrói hoje. Se constrói adotando políticas que vâo de encontro àquilo que são as legítimas aspirações do seu povo e para isso todos devem ser chamados a dar o seu contributo, é imperioso vermos o outro como um irmão, como aquele que quer e luta pelo seu bem da mesma forma como quer e luta pelo bem de todos.
Somos tão poucos e tão pequenos para estarmos tão longe um dos outros e em luta permanente que nos afasta da verdadeira luta, daquela que exigirá toda a nossa força para podermos em 2075 dizer que conseguimos bem mais do que aquilo que os nossos pais sonharam conseguir.
A grandeza exige que nos afastemos do nosso umbigo, do nosso ego fraco e mesquinho, das nossas limitações pessoais/de grupo e que nos vejamos como uma única entidade, uma Nação que com muito pouco conseguiu chegar a grandes feitos e que com união e visão conseguirá bem mais.
E esse Cabo Verde é possível, basta que queiramos. Construamos nos próximos 50 anos o país que sabemos que Cabo Verde é.
Viva Cabo Verde, viva os caboverdianos.
Vossa Adénis.
Praia, 30 de junho de 2025.

Adénis Carvalho Silva
"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."
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