Falta do que nos magoou

Falta do que nos magoou

Era de se esperar que quando nos afastamos daquilo que nos magoa conseguíssemos avançar sem sentir qualquer falta ou saudade, no entanto, não é bem assim.

Há já algum tempo que tenho dado por mim a refletir sobre isso. A refletir na falta que sinto, não do vício em si, mas do prazer que dele retirava. E tenho questionado se não será esse o motivo de ser tão difícil abandonarmos de vez os nossos vícios.

Quando tomamos consciência de que algo que fazemos, consciente ou inconscientemente, nos faz mal e decidimos fazer diferente, damos um passo essencial. O passo que nos permite conseguir ver para além daquilo que temos feito, o passo que nos permite acreditar que é possível fazer diferente.

O passo seguinte é adotar hábitos novos, que confiamos serem aqueles que nos permitirão viver melhor e do qual retiraremos benefícios que nos permitirão nos transformar na pessoa que queremos ser. Hábitos que nos afastem da pessoa que não queremos ser.

Contudo, o hábito que abandonamos foi algo que esteve connosco por vários anos, em alguns casos décadas seguidas. E como tal é algo que está enraizado em nós, é algo ao qual o nosso corpo e mente estão acostumados, cujos efeitos e sensações são para nos “casa”, um local que reconhecemos e no qual nos sentimos seguros de alguma forma. Um lugar que nos causa bem-estar. Ainda que essa sensação de bem-estar seja de curta duração e pouco tempo depois somos confrontados com a parte menos boa, com a parte que nos causa dor e sofrimento, damos por nós a ansiar pela tal sensação boa. O que nos queima por dentro, pois nos sentimos culpados por sentirmos falta de algo que sabemos ser mau para nós.

Todo e qualquer vício leva à nossa destruição, entendendo-se a destruição como tudo aquilo que nos afasta de nós mesmos, que nos afasta do potencial que cada um tem dentro de si. O vício nos torna escravos, nos torna menos do que daquilo que somos. É a maior ameaça que existe ao ser humano. E é tão difícil conseguirmos cortar com ele porque esteve connosco durante tantos anos que passamos a nos identificar com ele, é algo que se torna indissociável da nossa pessoa. Não nos reconhecemos inteiros sem ele. Atrevo-me a dizer que ficamos de certa forma órfãos quando abandonamos um vício.

Resolvemos cortar com o vício, adotamos hábitos saudáveis, reconhecemos os seus benefícios e ganhos. Forjamos uma nova pessoa, mais feliz, mais disposta, no entanto, não desaparece de nós a lembrança do prazer que retirávamos do vício. Acresce a isso o facto de que dificilmente conseguimos retirar o mesmo prazer dos novos hábitos adotados. O que pode fazer crescer em nós questionamentos sobre o que vimos fazendo e que podem minar os ganhos alcançados.

É aqui que a consciência entra em jogo e conseguimos ter uma vantagem, que se revelará fundamental para combatermos as diversas batalhas que se avizinham, na árdua luta que é abandonar um vício.

A consciência de algo não nos torna imunes aos seus efeitos, infelizmente. No entanto, só a consciência é que é capaz de nos dar uma verdadeira chance de criarmos esse novo amanhã que pretendemos. É ela que nos faz resistir à vontade de voltarmos aos velhos hábitos. É ela que nos dá ferramentas e recursos que permitem desconstruir a narrativa que permitiu que o vício se tornasse uma parte de nós e nos aprisionasse.

É ela que nos faz olhar e ver para além da tal falta e saudade do prazer que o vício nos dava. É ela que nos faz relembrar daquilo que connosco ficava quando se extinguia o prazer. É ela que nos recorda da sensação de vergonha, de impotência, de fraqueza que nos inundava depois do prazer ter ido embora. É ela que nos faz ser capazes de fazermos uma análise fria do que era real: prazer efémero vs sofrimento constante.

Ao tomarmos consciência das coisas conseguimos ver para além do óbvio, da primeira camada. Conseguimos refutar argumentos enviesados em que conseguimos descortinar que já não cabe em nós a nossa antiga forma de pensar, a que tornou possível a criação e manutenção do vício.

A consciência é a arma mais poderosa a que o ser humano pode aspirar, pois é ela que nos permite conhecer a nossa essência e a fazer com que queiramos ser nada mais do que nós mesmos, em suma, é ela que nos permite alcançar a tal liberdade, que nos permite ser plenamente felizes.

E ela está à nossa disposição, está à distância de um olhar, de um silêncio em que nos ouvimos, deixando de fora todo o ruído do mundo. Tudo o que precisamos para aceder à consciência se encontra em nós, bastando que queiramos mergulhar em nós mesmos e abrirmos mão das desculpas, das dores e das feridas que guardamos em nós e que alimentaram o vício. Basta que queiramos e estarmos dispostos a resolver as tais feridas e dores, limpando todo o lodo que se encontra nas nossas profundezas, permitindo que o sol entre e o horizonte se apresente limpo.

A tomada de consciência exige muito de nós, exige um esforço e trabalho constante que não tem fim. Como tudo aquilo que é valioso, a consciência tem um elevado custo, mas só ela nos consegue dar o prémio último – descobrirmo-nos inteiros.

Praia, 31 de janeiro de 2026.

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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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